Ciclo 32 – Nouvelle Vague

Escrito por em 30 mar 2010 | .

Curador: Cesar Rodrigues

Nouvelle Vague. Um dos nomes mais conhecidos da história do cinema, movimento dos mais respeitados e de maior influência estética no desenvolvimento do cinema enquanto arte, a nova onda do cinema francês, ainda depois de cinquenta anos de seu início, é objeto de mostras, ciclos e homenagens pelos quatro cantos do mundo. E no Cineclube Beloca não é diferente.
Se é difícil demarcar um início para o movimento [sequer existe um consenso quanto a considerá-lo um movimento], é fácil diagnosticar suas origens, raízes e influências. E o embrião poderia ser apontado na obra crítica de André Bazin, brilhante ensaísta e teórico que diagnosticou a decadência do cinema comercial de Hollywood e das velhas formas do cinema francês, além de, apoiado pelo diretor da lendária Cinématèque Française, Henri Langlois, lançar as bases teóricas para a Política dos Autores.
Levada a cabo pela influente revista Cahiers Du Cinéma, tal política trabalhava com a ideia de autoria em cinema, como nas diversas artes, sendo que o diretor transmitiria no filme suas marcas estilísticas, a escolha de temas relevantes segundo seu pensamento, valorizando especialmente diretores como Alfred Hitchcock, John Ford, Charles Chaplin ou Howard Hawks.
Mais que formular as bases teóricas para uma transformação na forma de se fazer cinema, a Cahiers Du Cinéma contava em seu corpo de críticos com os cineastas que futuramente formariam o corpo da Nouvelle Vague: Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer, Claude Chabrol e Jacques Rivette.
A partir do sucesso obtido como críticos da revista entre o final dos anos 1940 e dos 1950 é que cada um deles se lançaria como cineasta, executando na prática aquilo que propunham na teoria – alguns com maior sucesso de público e crítica [casos de Godard e Truffaut], outros com menos, porém deixando já em seus anos iniciais um legado inquestionável na história do cinema.
E embora o primeiro filme desses diretores, seguindo a estética que convencionou-se chamar Nouvelle Vague seja Nas Garras do Vício [Le Beau Serge, Claude Chabrol], de 1958 e que abre o ciclo, sua confirmação viria com a premiação de Os Incompreendidos [Les 400 Coups, 1959, François Truffaut] no Festival de Cannes e com a ampla divulgação internacional de Acossado [À Bout de Souffle, 1959, Jean-Luc Godard], o 2º filme do ciclo.
Essa fase inicial, que poderíamos considerar como a fase heróica, em que as características vão se definindo e os diretores se impondo, se estenderia até 1964, estando todos os filmes exibidos no atual ciclo dentro dela. Podemos perceber o experimento de novas formas narrativas, um diálogo da arte com a realidade [a Nouvelle Vague seria herdeira direta do Neo-realismo italiano], os temas existencialistas e absurdos na vida cotidiana, a juventude. Impulsionados pelo desenvolvimento técnico, os filmes saem dos estúdios e ganham a rua. A cidade passa a ser também personagem nas narrativas [e isso pode ser claramente observado nas obras iniciais de Godard e Truffaut principalmente] e o cinema testemunha da história.
Além dos diretores oriundos da Cahiers Du Cinéma, também são constantemente rotulados como Nouvelle Vague artistas vinculados ao grupo intelectual de Rive Gauche, reunido em torno da figura e das ideias de Jean Paul Sartre. Deste grupo destacam-se Agnès Varda, Chris Marker e principalmente Alain Resnais, que filme após filme se reinventava formalmente e que, segundo o genial crítico brasileiro José Lino Grünewald, libertaria o cinema da literatura com o seu segundo filme: Ano Passado em Marienbad [L’anne Dernière au Marienbad, 1960], mas já na estréia rompia as barreiras entre ficção e documentário e fazia um híbrido no belíssimo Hiroshima, Meu Amor [Hiroshima Mon Amour, 1959].
O último filme coberto pelo ciclo é uma das obras primas de François Truffaut e um dos grandes símbolos do movimento, citado e copiado por gerações e gerações de cineastas, Uma Mulher para Dois [Jules et Jim, 1962] escancara a dificuldade nas relações humanas e o choque com a situação limite da guerra. Uma das mais claras manifestações e definições do que seria a Nouvelle Vague.
Nos anos seguintes a 1964 a maioria desses diretores [mais notadamente Godard, em filmes como A Chinesa, de 1967] adotaria uma postura mais engajada e ajudaria a juventude a criar o ambiente de questionamento e inconformismo que resultaria nas revoltas de 1968. Revoltas que foram determinantes na transformação da realidade para a que conhecemos hoje.

le beau serge

NAS GARRAS DO VÍCIO – (Le beau Serge) – 1958– 98 min – França
Direção: Claude Chabrol
16 anos
Dia 04/04/2010 – terça-feira – 20 horas
Sala Dilo Gianelli
Theatro Municipal

Neste ciclo serão exibidos os principais filmes da nouvelle vague francesa. O primeiro filme, Nas Garras do Vício, dirigido pelo cineasta francês Claude Chabrol, é considerado a obra inicial do movimento. Chabrol, junto com os outros diretores apresentados neste ciclo, eram colaboradores da famosa revista criadora de conceitos, “Cahiers du Cinema”, que discutia as novas idéias sobre cinema no final dos anos 50 e nos anos 60.

O filme conta a história de François (Jean-Claude Brialy), que retorna ao vilarejo onde nasceu no interior da França, após um período de 12 anos.
Lá ele passou toda a sua infância e agora adulto, percebe que não ocorreram muitas mudanças. É quando reencontra seu amigo Serge (Gérard Blain), que está com problemas no casamento em decorrência do vício pela bebida.
Venceu o prêmio de Melhor Filme no Festival de Locarno, 1958 eo prêmio Jean Vigo de 1959.

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O ACOSSADO – (À Bout de Souffle) – 1959– 87 min – França
Direção: Jean-Luc Godard
Livre
Dia 13/04/2010 – terça-feira – 20 horas
Sala Dilo Gianelli
Theatro Municipal

O Acossado, é uma obra prima do cinema francês. Filme de estréia do cineasta Jean Luc-Godard, que desconsiderou as formas convencionais e inovou a arte cinematográfica, subvertendo os gêneros do cinema americano, quebrando a narrativa em fragmentos e incorporando a eles, trechos de literatura, quadrinhos, música erudita e artes plásticas.
Um dos principais nomes da ” Nouvelle Vague”, Godard é reconhecido por um cinema vanguardista e polêmico. Ele tomou como temas e assumiu como forma, os dilemas e perplexidades do século XX, de maneira ágil, original e quase sempre provocadora.
O filme retrata o amor fatal entre um criminoso fugitivo, Michel Poiccaard (Jean-Paul Belmondo) e Patrícia (Jean Seberg), uma jovem norte-americana aspirante a jornalista. Michel rouba um carro em Marselha, mata um policial no caminho para Paris e, ao chegar, encontra Patrícia, que vende jornais nos Champs-Élysées. Enquanto foge da polícia, aplica outros golpes na cidade.
Ganhou o Urso de Prata no festival de Berlim em 1960 na categoria de melhor diretor.

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HIROSHIMA ,MEU AMOR – (Hiroshima, mon amour) – 1959– 90 min – França/Japão
Direção: Alain Resnais
16 anos
Dia 20/04/2010 – terça-feira – 20 horas
Sala Dilo Gianelli
Theatro Municipal

O terceiro filme do ciclo, “Hiroshima, Meu Amor” é o primeiro longa-metragem do então famoso documentarista francês Alain Resnais. Filme precursor da nouvelle vague, foi feito no auge da Guerra Fria, período em que a possibilidade de uma guerra nuclear era latente e falar em paz era considerado “de esquerda” e conseqüente oposição aos EUA. Muito ousado estilisticamente, mistura literatura e cinema e foge do realismo (mesmo na interpretação de Emmanuelle Riva, que dá sempre um toque teatral ou artificial de propósito).
O filme conta a história de uma atriz francesa que durante sua participação num filme sobre a paz, rodado em Hiroshima, tem uma aventura amorosa com um japonês, o que reaviva nela lembranças de uma trágica paixão durante a Ocupação. Entre o passado de guerra e o presente de incertezas, ele e ela tentam tornar imortal este encontro fortuito, através da mistura de tempos, recordações e corpos.
Foi indicado ao Oscar de roteiro, ganhou prêmio da crítica em Cannes, melhor filme estrangeiro pelos críticos de Nova York.

jules et jim

UMA MULHER PARA DOIS – (Jules et Jim) – 1962– 105 min – França
Direção: François Truffaut
16 anos
Dia 27/04/2010 – terça-feira – 20 horas
Sala Dilo Gianelli
Theatro Municipal

Um dos expoentes do cinema mundial, o françês François Truffaut foi uma criança solitária, cuja grande paixão era o cinema. Seu entusiasmo levou o crítico André Bazin a convidá-lo para trabalhar na revista ”Cahiers du Cinema”, onde tornou-se um crítico contundente e ajudou a desenvolver a polêmica teoria do autor, pela qual os filmes tem a personalidade de seu diretor e, portanto, devem sua qualidade a ele.
Inspirado no livro de Henri-Pierre Roché, Truffaut conta a história , de Jules (Oskar Werner), um alemão ingênuo, e Jim (Henri Serre), um francês do tipo elegante e sedutor, que se passa na virada do século XX. Eles são amigos e se apaixonam pela mesma mulher Catherine (Jeanne Moreau), que acaba casando com Jules. Depois da Primeira Guerra Mundial, quando eles se reencontram na Alemanha, Catherine começa a amar Jim. Clássico do cinema francês sobre o amor a três.
Ganhou em 1962 o prêmio de melhor filme na British Academy of Film and Television Arts

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