Outras Histórias
Esse é um mural de memórias relacionadas às histórias de Dona Beloca e do Cinema Sanjoanense.
Naquela rua
Nesta rua, nesta rua
Mora um anjo
Que se chama,
Que se chama…
Na minha rua morava um anjo. Não tinha asas nem halo, muito menos vestia camisolão branco. Para nós, crianças daquela rua e redondezas, era a expressão do que havia de moderno. Usava turbantes de tricô das mais variadas cores, saia justa e blusas de seda, como mandava o figurino da época, sandálias de listras coloridas com salto anabela e plataforma. Ninguém usava sandálias como aquelas,nem se produzia como ela.Era uma mulher rica.
Criança alguma lhe tinha medo, pois irradiava um ar de acolhimento, era raro não estar sorridente. Conversava com qualquer pessoa na rua, no entanto também era capaz de encerrar a conversa sem mais nem menos, o que às vezes acontecia com adultos, com as crianças não.
Raramente estava desacompanhada, uma ou mais empregadas, dois ou três netos iam com ela por toda parte de carro com o‘choffeur”, outra modernidade que nos fascinava. Adorava tocar sanfona na área externa de sua casa sem nenhum motivo especial. Nessas ocasiões, as crianças iam se chegando para ouvir,acompanhar com palmas e talvez cantar.Dependia. Do quê? Do momento. Com ela era tudo mais ou menos do momento. Talvez por isso gostássemos tanto dela.
A televisão nem era cogitada ainda, nossas diversões consistiam em brincadeiras nos quintais durante o dia e, à noite, na nossa rua. Rua Prudente de Morais, primeiro quarteirão. Havia luz no poste, fraquinha, mas presente, pouco trânsito, muitas crianças. Entre pular corda, pique de pegar, pique de esconder e passar anel divertíamo-nos até às inapeláveis nove horas.
AH! Mas às vezes acontecia. Como que por encanto, lá estava ela a armar a máquina de passar filmes. A notícia espalhava-se e logo a rua estava cheia de meninos e meninas sentando-se na sarjeta, no murinho da casa de baixo, gente grande arrastando cadeiras e o cinema começava. Palmas, gritos para o mocinho, xingamentos para os bandidos, risos e gargalhadas para O Gordo e o Magro, o nosso preferido. Os filmes eram sempre os mesmos e muitas vezes se partiam, mas que importava? Esperávamos, sem reclamar, o conserto que ela mesma fazia com uma colinha especial.Era um programa diferente, uma noite maravilhosa, uma novidade!
A tela era a parede da casa da vizinha de frente, que coitada, por sofrer dos nervos, como se dizia naquele tempo, nunca saía para assistir ao cineminha conosco, no entanto não se incomodava com a exibição. Essa também era um anjo para a molecada, se bem que um anjo muito tristinho. Obrigada, dona Andica, Deus a tenha num ótimo lugar. Graças a sua boa vontade o outro anjo podia nos dar tanta alegria.
E assim, sem data marcada, recebíamos, de graça, os filmes que ela trazia de São Paulo para divertir sua numerosa família. Esse luxo era repartido conosco por pura bondade, pois como retribuir tal gentileza?Não nos era cobrado nem um muito obrigado. Diversão naquele tempo era restrito a procissões, festa de São João e cinema aos domingos para quem podia pagar a entrada, cara para muitos. Tenho certeza de que todos que freqüentaram aquelas sessões concordarão comigo, Dona Gabriela de Oliveira Costa, a nossa dona Beloca, era um anjo que morava na Prudente de Morais.
Sonia Maria S. Quintaneiro – Academia Sanjoanense de Letras