Outras Histórias

Escrito por em 15 jul 2007 |

Esse é um mural de memórias relacionadas às histórias de Dona Beloca e do Cinema Sanjoanense.

Naquela rua

Nesta rua, nesta rua
Mora um anjo
Que se chama,
Que se chama…

Na minha rua morava um anjo. Não tinha asas nem halo, muito menos vestia camisolão branco. Para nós, crianças daquela rua e redondezas, era a expressão do que havia de moderno. Usava turbantes de tricô das mais variadas cores, saia justa e blusas de seda, como mandava o figurino da época, sandálias de listras coloridas com salto anabela e plataforma. Ninguém usava sandálias como aquelas,nem se produzia como ela.Era uma mulher rica.

Criança alguma lhe tinha medo, pois irradiava um ar de acolhimento, era raro não estar sorridente. Conversava com qualquer pessoa na rua, no entanto também era capaz de encerrar a conversa sem mais nem menos, o que às vezes acontecia com adultos, com as crianças não.

Raramente estava desacompanhada, uma ou mais empregadas, dois ou três netos iam com ela por toda parte de carro com o‘choffeur”, outra modernidade que nos fascinava. Adorava tocar sanfona na área externa de sua casa sem nenhum motivo especial. Nessas ocasiões, as crianças iam se chegando para ouvir,acompanhar com palmas e talvez cantar.Dependia. Do quê? Do momento. Com ela era tudo mais ou menos do momento. Talvez por isso gostássemos tanto dela.

A televisão nem era cogitada ainda, nossas diversões consistiam em brincadeiras nos quintais durante o dia e, à noite, na nossa rua. Rua Prudente de Morais, primeiro quarteirão. Havia luz no poste, fraquinha, mas presente, pouco trânsito, muitas crianças. Entre pular corda, pique de pegar, pique de esconder e passar anel divertíamo-nos até às inapeláveis nove horas.

AH! Mas às vezes acontecia. Como que por encanto, lá estava ela a armar a máquina de passar filmes. A notícia espalhava-se e logo a rua estava cheia de meninos e meninas sentando-se na sarjeta, no murinho da casa de baixo, gente grande arrastando cadeiras e o cinema começava. Palmas, gritos para o mocinho, xingamentos para os bandidos, risos e gargalhadas para O Gordo e o Magro, o nosso preferido. Os filmes eram sempre os mesmos e muitas vezes se partiam, mas que importava? Esperávamos, sem reclamar, o conserto que ela mesma fazia com uma colinha especial.Era um programa diferente, uma noite maravilhosa, uma novidade!

A tela era a parede da casa da vizinha de frente, que coitada, por sofrer dos nervos, como se dizia naquele tempo, nunca saía para assistir ao cineminha conosco, no entanto não se incomodava com a exibição. Essa também era um anjo para a molecada, se bem que um anjo muito tristinho. Obrigada, dona Andica, Deus a tenha num ótimo lugar. Graças a sua boa vontade o outro anjo podia nos dar tanta alegria.

E assim, sem data marcada, recebíamos, de graça, os filmes que ela trazia de São Paulo para divertir sua numerosa família. Esse luxo era repartido conosco por pura bondade, pois como retribuir tal gentileza?Não nos era cobrado nem um muito obrigado. Diversão naquele tempo era restrito a procissões, festa de São João e cinema aos domingos para quem podia pagar a entrada, cara para muitos. Tenho certeza de que todos que freqüentaram aquelas sessões concordarão comigo, Dona Gabriela de Oliveira Costa, a nossa dona Beloca, era um anjo que morava na Prudente de Morais.

Sonia Maria S. Quintaneiro – Academia Sanjoanense de Letras

Lançamento do documentário sobre o filme João Negrinho pela UniFae em 2009.
http://www.fae.br/Noticias/n1022.html

http://www.mulheresdesaojoao.com.br/index_arquivos/FilmeJOAONEGRINHO1958.htm
JOÃO NEGRINHO – 1958
Longa metragem — Adaptação do romance de mesmo nome de Jaçanã Altair Pereira Guerrini

Sinopse do filme:
A trajetória e a amizade de dois garotos, um negro, outro branco, em uma fazenda durante o período pré-abolicionista, unidos pelo esforço piedoso de um padre que prega a igualdade das raças e combate as crueldades contra os escravos.

Produção
Companhia(s) produtora(s): Gianelli Filmes do Brasil
Produção: Gianelli, Dino

Distribuição
Companhia(s) distribuidora(s): Cinematográfica Boa Vista

Roteiro: Altair, Jaçanã
Adaptação: Censoni, Oswaldo; Gianelli, Dilo

Direção
Direção: Censoni, Oswaldo
Continuidade: Perri, Wanderley

Fotografia
Direção de fotografia: Gianelli, Dilo
Assistência de fotografia: Gianelli, Dino R.
Assistência de câmera: Heros, Ruy
Som
Técnico de som: Magassy, Ernest
Engenharia de som: Hack, Ernst

Montagem: Sobolewsky, Lydia
Roteiro de montagem: Sobolewsky, Lydia

Direção de arte
Cenografia: Perri, Wanderley

Assistencia de cenografia: Castilho, Armando
Regente Maestro: Bernhard, Conrad
Orquestra: Orquestra da Rádio Gazeta de São Paulo

Canção
Título: Canoeiro
Autor da canção: Andrade, Edvina
Intérprete: Silveira, Heleninha e Demônios da garôa

Locação: São João da Boa Vista
Elenco:
Costa, Santo (João Negrinho)
Mancini Filho, Walter (Chiquinho)
Prado, Alberto (Fazendeiro)
Ribeiro, Alba (Jacinta, mulher do fazendeiro)
Michelazzo, Hugolino (Frei Luís)
Dias, José Carlos (Soares de Moreira)
Aguiar, Abdalla (Seixa de Mendonça, capataz)
Rosa, Eglantina (Mãe Maria)
Silva, Joaquim Franco da
Luiz, Benedito
Noronha, Lucio
Cassiano , Jandira (cantora da festa)

Fontes:
Folha da Noite, 30.11.1956
Folha da Manhã, 03.06.1958
Observações:
FCB/FF indica distribuição da Satélite Filmes. Porém, um recorte sem identificação informa Independentes Filmes do Brasil. Virgulino, Carlos, Costa, Alcides, Noronha, Edwina e Santos, Geraldo. Aponta ainda canções de Noronha, Edwina e Santos, Geraldo.
A Folha da Noite de 30.11.1956 informa que o filme custou cerca de 2 milhões de cruzeiros, “(…) capital obtido mediante emissão de ações ao portador, resgatáveis dentro de 2 anos.”


Mais emoção : Lançamento do documentário sobre o filme João Negrinho pela UniFae em 2009.

Ouvimos Santos Costa Neto, filho de João Negrinho, que mal podia falar: “Estou muito emocionado e feliz”. A esposa Elza não conseguia esconder as lágrimas e nem conseguiu expressar a sua alegria diante da lembrança de um tempo distante, mas que deixou profundas marcas.

Também conversamos com Jandira Cassiano Virga, que teve participação no elenco do filme João Negrinho e também foi comentarista do vídeo do mesmo nome e daquele dedicado à história do Colégio Santo André, como ex-aluna.

“A convite, participei deste evento maravilhoso. Aliás, estou surpresa. Não acho fácil reunir todo material. O produto revela talento, competência e dedicação, sem medidas. Superou minha expectativa. Toda a equipe está de parabéns pela persistência e energia, positiva” disse Jandira

Ela recordou que a participação no filme- na década de 50- foi outra surpresa: “Não sabia que seria capaz de fazer o que fizemos, naquela época, sem nenhuma estrutura, sem condições técnicas. Considero uma enorme conquista.

Dona Cida- mãe de João Negrinho- estava realizada. “Eu estou mais do que emocionada. Para falar a verdade, sinto uma mistura: gratidão pelas homenagens e uma enorme tristeza pela perda de meu filho. Ele foi embora muito cedo. Mas, de certa forma, esta homenagem nos dá força. Santo foi um ótimo filho”, comentou. Dona Cida recorda o carinho que o filho sempre teve pela mãe e o empenho para integrar o elenco de um filme: “Era só um ajudante de engraxate e receber um convite tão importante, foi uma honra e um sacrifício”.

Os depoimentos dos que participaram da produção são intercalados com cenas do filme e compõem o resumo da história original. O vídeo documentário é uma viagem no tempo. Através dele é possível identificar paisagens da zona rural da cidade, na década de 1950. Também é possível ver o talento do garoto Santo Costa, que interpretou o personagem principal e de vários outros sanjoanenses, entre os quais: Maria Amaziles Oliveira Costa (Zilóca); Jandira Cassiano e Hugolino Michelazzo. Além do filme foram recuperadas dezenas de fotos da época que em breve estarão disponibilizadas no site do Unifae.

E mais: o vereador Roberto Campos; o advogado Osvaldo de Souza, representante da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil- subsecção São João da Boa Vista) e Associação de Amigos do Bairro Alegre; as Religiosas: Irmã Arlete e Irmã Geni, da Congregação das Andrelinas; o Padre Claudemir Canela (Padre Mil) representante da Catedral e Museu de Arte Sacra; Marcos Paulo Pereira, sobrinho do Sr. Tatá; Sra. Alba Ribeiro (Ziloca), do elenco do filme e comentarista do vídeo documentário João Negrinho; João Octavio Bastos, representante da família de Octavio da Silva Bastos.

Também estiveram no evento: Antônio Carlos Rossi, representante da 1ª turma de Ciências Econômicas; Sílvia Ferrante, representante da Academia de Letras e do Jornal Edição Extra; Marcelo Gregório, repórter da TV União e o cinegrafista da equipe; Maria Cecília Nogueira e Maria Cândida Oliveira, também representantes da Academia de Letras de São João da Boa Vista; Elza da Silva Santos, esposa de João Negrinho; Santo Costa Neto, filho de João Negrinho e seu filho, Natan; Dona Cida, Costa, mãe de João Negrinho; Jandira Cassiano Virga, do elenco do filme e comentarista dos vídeos-documentários: João Negrinho e Colégio Santo André; Jaime Splettstoser, representante do Arquivo Histórico de São João; o fotógrafo Alfredo Nagib Fritz e Alice de Abreu, representando o Cineclube Beloca.
O casal, Márcia e Marcelo Censoni, representaram Sr. Osvaldo Censoni, diretor do filme João Negrinho. E também foi anotada a presença de professores e funcionários do Unifae; alunos de vários cursos; ex-alunos, além de representantes da comunidade, de modo geral. Foram cerca de duas horas de pura emoção, com a sugestão de levar esses trabalhos às escolas locais, como exemplo e conteúdo histórico.

O Projeto História Viva é uma atividade de extensão do Centro Universitário implantado há 5 anos pelo Reitor, professor Valdemir Samonetto e coordenado pelo professor Francisco de Assis Carvalho Arten. O objetivo do projeto é recuperar a memória do Unifae, da cidade e região e, ao mesmo tempo, proporcionar aos estudantes de Comunicação Social (Jornalismo e Publicidade e Propaganda).
VOLTA
TV Cultura: João Negrinho

João Negrinho (Unifae)

Na década de 1950 moradores de uma pequena cidade no interior de São Paulo, São João da Boa Vista, se cotizam para produzir um filme. Uma verdadeira epopeia, já que não possuíam nenhum recurso técnico, pouco dinheiro e os artistas eram todos amadores, residentes na cidade. Assim surgiu João Negrinho, filme que tinha a pretensão de diminuir o preconceito racial tão forte na época. O filme fez enorme sucesso e foi apresentado em todo Brasil, para surpresa de todos, inclusive dos que participaram do filme, que jamais haviam sonhado que teria tal repercussão. Para produzir esse vídeo, os alunos da Unifae recuperaram cópia do filme original e conseguiram localizar mais de 200 fotos da época. A produção é de Alline Adriane Fanelli Mastiguim, Rafael José Brunelli e Nayara Maria Vasconcellos.

Fonte: http://www.mulheresdesaojoao.com.br

Ninguém comentou até agora

comentários não estão habilitados.