Dona Beloca

Escrito por em 20 jun 2007 |

Dona Beloca aos 84 anos
Dona Beloca aos 85 anos (foto Gabriela de Oliveira)

Apresentação

Gabriella de Oliveira Costa, a Beloca, foi escolhida para dar seu nome ao cineclube em São João da Boa Vista, pelo seu pioneirismo na sociedade, na política e nas artes e em especial, o Cinema.
Mesmo com sua intensa atuação política, a primeira vereadora eleita da cidade ainda encontrava tempo para tocar piano, sanfona, cantar e dançar. Beloca adorava cinema, e na década de 1940, comprou uma filmadora.

Nos anos 50 adquiriu um projetor de filmes de alta qualidade. A princípio ela fazia exibições para a família na sala de visitas de sua casa. Depois, teve a idéia incrível de promover exibições gratuitas para o povo no meio da rua em frente ao casarão onde morava. Em 1954, Beloca foi a principal patrocinadora do filme “O João Negrinho“, baseado no livro da escritora sanjoanense Jaçanã Altair, que se tornou um sucesso no circuito nacional. Hoje, seu acervo passa a ser preservado pelo novo cineclube sanjoanense.

Dona Beloca, uma mulher a frente do seu tempo.

Gabriella de Oliveira Costa, a Beloca, sempre esteve por trás de decisões importantes e de influência na vida pública e política sanjoanense, coisa rara nas mulheres da sua época.

Nasceu na Fazenda da Lage em São João da Boa Vista no dia 10 de setembro de 1902 e faleceu em 01 e fevereiro de 1987 aos 85 anos, sendo velada na sua residência na rua Prudente de Morais, 67 onde viveu quase toda sua vida e onde hoje é o restaurante Casarão. Era filha mais nova de Gabriella de Cássia Ribeiro de Oliveira (Dona Biela) e Christiano Osório de Oliveira, pais amorosos que sempre lhe fizeram todas suas vontades.

Beloca e família
Beloca e família, São Paulo – 1906 [Da esquerda para a direita: Joaquim, Luiza, Christiano Osório, Dona Biela, Rita de Cássia, Beloca com 4 anos (sentada no banco), Angelina e José Pedro]


Ela cresceu voluntariosa e dona de uma vontade ferrenha, nunca desistindo dos seus propósitos até consegui-los. Aos 12 anos, foi para São Paulo estudar no colégio Sion e lá a sua vocação nata aliada a essa experiência na Capital, desenvolveram o gosto pela arte e pela cultura.
Desde cedo, mostrou-se muito apaixonada por animais e pelas artes, tendo muitos bichos de estimação. Tocava piano, sanfona, cantava, dançava, adorava carnaval e tudo para ela era motivo para uma boa festa. Era também muitíssimo religiosa (realizou grandes benfeitorias nessa área) e gostava de política, vindo a tornar-se em 1955, a primeira vereadora eleita na cidade. Sua palavra firme e doce, era lei onde o poder era essencialmente masculino.

Beloca e João
Dona Beloca e João Baptista em lua-de-mel (foto arquivo pessoal)

Casou-se em 1921, aos 19 anos com o médico João Baptista Figueiredo Costa, com quem teve 5 filhos, 24 netos e 44 bisnetos. Ficou viúva em 1965, aos 63 anos.
O destino tratou de uni-los de maneira espetacular. Dr. João Baptista diplomou-se em medicina em Genebra. Seus estudos foram custeados por seu pai Cel. Lúcio Bernardino da Costa, através da exportadora do seu primo, Cel. Christiano Osório, pai de Beloca, que lhe enviava uma saca de café por mês, que vendida, rendia-lhe o suficiente para mantê-lo na Suíça. Voltou ao Brasil aos 30 anos, já formado, já formado e tendo servido na Cruz Vermelha, por ocasião da Primeira Guerra Mundial. Encontrou a jovem Beloca, então com 16 anos e muito doente, pois sua paixâo por animais causou-lhr uma encefalite (doença gravíssima para sua época), o que a fez necessitar da extrema-unção, pois os tratamentos a que fora submetida, até então, de nada adiantaram, tendo sido deseganada por seus médicos. Dr. João Baptista, experiente e preparado, facilmente diagnosticou e tratou sua enfermidade. Beloca já era noiva, mas convivendo com João Baptista, durante a sua convalescência, acabaram se apaixonando. Ela desmanchou seu noivado anterior e João Baptitsa a pediu em casamento, ao pai e ao irmão mais velho José Pedro de Oliveira.

beloca em pocos
Beloca com o marido, os sobrinhos e netos no parque em Poços de Caldas em 1935. (Da esquerda para direita: Homem dono do bode/carneiro e a sua filha, os sobrinhos, Rosa Maria e seu irmão Ozorinho, Beloca, João Batista, e as filhas Belica e Veva e o menino, filho do dono do bode.)

Os pais ficaram muito felizes com o fato, mas o avisaram das condições: Beloca era uma menina muito mimada e deveria continuar sendo se ele quisesse ser feliz com ela. Ele concordou e assim como seus pais, sempre lhe fez as vontades, apoiando-a em todas as iniciativas, mesmo nas mais ousadas.

Beloca e o Cinema

Beloca adorava cinema e durante os anos 40 comprou uma filmadora e a sua paixão foi se consolidando. Nos anos 50 adquiriu um projetor americano “Bell & Howell”, tornando-se também uma grande incentivadora desta arte. O equipamento era profissional e possibilitava projeções de alta qualidade. A princípio ela fazia as exibições na sua grande sala de visitas e num galpão nos fundos da casa: o Teatrinho. Nesse espaço, criado para esse fim, ela trazia espetáculos teatrais e fazia projeções semanais para a família e amigos mais próximos. Os netos foram os que mais aproveitaram porque durante sua infância assistiram aos muitos filmes e desenhos que a avó colecionava. Seu acervo era composto de musicais, filmes de danças ciganas, folclóricas, comédias, “far west`s” e desenhos animados que ela adquiria em São Paulo e no exterior.

beloca e filhos
Beloca com os filhos em março de 1934 (da esquerda para a direita Angelina, Lucio, Beloca, Tiano, Belica e Veva)

Havia também os muitos filmes com cenas da família, feitos por profissionais, como o casamento de sua filha Anna Maria Angelina de Oliveira Costa, em 1942 e os feitos por ela mesma, como o de seus pais de seu neto João Batista Costa Mancini (filho de Anna Maria Angelina) aos 2 anos, na casa de veraneio em Santos. E ainda o filme registrando quando Dona Biela recebeu a comenda do Papa e a comemoração da mesma. Em todas as ocasiões importantes, tudo era registrado, para depois exibir na próxima sessão com a família. Seu irmão Joaquim José Ribeiro de Oliveira também adorava filmar, seus temas prediletos eram as brigas-de-galo, touros e pescarias.


O Casarão
O Casarão, residência de Dona Beloca nos anos 60.

Cinema para o povo

Foi no começo dos anos 50, que ela teve uma idéia incrível, fazer exibições de cinema nas colônias de suas fazendas e em frente a sua casa na cidade. Fazia sessões para o povo, no meio da rua em frente ao casarão onde morava, usando seu equipamento e seus filmes. Para tornar isso possível, fez um acordo com seu vizinho de frente, o Sr. Silvério Raimundo e do terraço da sua casa projetava os filmes na parede defronte, que foi pintada de branco especialmente para esse fim. Eram colocadas tabuletas de trânsito impedido em cada esquina do quarteirâo.

Diversão em família
Ela mesma operava as máquinas e com a ajuda dos netos, colava os filmes que arrebentavam e resolvia qualquer problema com o projetor, que era do mesmo porte do projetor do Cine Avenida. Antes da sessão Beloca e o seu ajudante João-Sem-Medo faziam a divulgação pelo alto-falante do “Jeep”.

Beloca e netos
Beloca com os netos em 1957 [Nhô (Chistiano), João Batista, João Gabriel, Ana, Cecília, Lilian e Silvia e o menino com chupeta Badá (José Osvaldo)]


Essa sessões eram motivo de discussões com o dono do Cine Avenida, o Sr. Sabino, que achava injusta a concorrência, porque o cineminha da Beloca era gratuito e com distribuição de doces, balas e pipocas para o público. As pessoas levavam suas próprias cadeiras ou bancos e as crianças sentavam pelo chão. Frequentemente costumava organizar excursões para São Paulo para assistir espetáculos, como Holliday on Ice, Circo de Moscow e teatros. Para isso, fretava um ônibus, que ia lotado com os netos, sobrinhos e amigos.


No alto, os filhos Lúcio, Veva, Tiano e Belica.
Embaixo, da esquerda pra direita: Beloca com o neto Waltinho, Dona Gabriela (mãe dela), Dr. João Batista


A Gianelli Filmes e o filme João Negrinho

Em 1954, Beloca foi principal patrocinadora do filme João Negrinho. Seu genro Oswaldo Censoni, casado com sua filha Maria Genoveva Costa Censoni, foi diretor, produtor e roteirista do filme e fundou,com Dilo Gianelli, a “Gianelli Filmes do Brasil”. Seu neto, Walter Augusto Costa Mancini Filho, também atuou no papel do Sinhozinho Chiquinho, assim como as de Ziloca Ribeiro, Eglantina Rosa (Tina), Jandira Cassiano, Abdala Abdal, Alberto Prado, Benedito Porfírio, José Carlos Dias, Lúcio Noronha, Hugolino Michelazzo, Ary Pires Aguiar e outros. As locações do filme, dentre outras, concentraram-se principalmente nas propriedades do Espólio de Dona Gabriella (mãe de Beloca), em Campinas e em São João da Boa Vista.
Na fazenda Lagoa Formosa, onde situa-se a Dedini feita a cena do carro-de-bois passando sobre a ponte do rio Jaguari. Na fazenda Duas Pontes em Campinas (atualmente Solar das Andorinhas), foram filmadas cenas do interior da casa.

As filmagens e todo o trabalho de corte, edição e dublagem seguiram por 3 anos e no dia 4 de dezembro de 1957, o filme foi exibido em avant premiér no Cine Avenida, ficando por vários dias também no Cine Theatro Municipal. “João Negrinho” foi apresentado com sucesso em circuito nacional, durante vários meses. O filme comoveu platéias de todo o Brasil, chegando o ator Santo Costa, de 14 anos a ser comparado ao personagem infantil de outra produção de sucesso na época: ‘Marcelino pão e vinho”.

“ Para a fictícia fazenda Fundão, foi utilizado o sobrado do engenho do Atibaia, ou melhor, o Solar dos Aranhas em Campinas, demolido nos anos 60. A casa em grandes dimensões, em taipa de pilão, estava com seu interior praticamnete em ruínas. Ao debruçarem nas janelas, os atores tinham que equilibrar em armações de madeira no segundo piso. As cenas do seu interior foram filmadas no antigo sobrado do Christiano Osório de Oliveira hoje o atual Bispado, na praça Roque Fiori. Outra residência da cidade utilizada nas gravações foi o antigo chalé do próprio Chistiano Osório (depois do Dr Alípio Noronha), na esquina da Prudente de Morais com a Benedito Araújo. Já a sede do fazendeiro de pensamentos liberais foi locada na Fazenda da Lage, na estrada para Águas da Prata, também utilizando suas salas e seu magnífico jardim, com fontes em funcionamento. A comunidade colaborou com a decoração, fornecendo móveis, quadros, louças, cristais, uma preciosa caixa de música; ferros autênticos da tortura e de prisão de escravos…”*.


Beloca em Casa Branca
Beloca em Casa Branca (Abril 1967)

Entre muitos outros feitos, Beloca criou A Banda Dona Gabriella, nome de sua mãe, banda esta cuja “célula mater” teve início na fazenda Lage e que depois, vindo para a cidade, atuou nas praças de São João e festas particulares. Em 1982, outorgou escritura pública de doação dos direitos autorais e os instrumentos para a Prefeitura Municipal que desde então assumiu o seu funcionamento. Em 2005 passa a se chamar Corporação Musical Dona Gabriella de Oliveira Costa em homenagem à sua idealizadora.

Produziu muitos espetáculos teatrais infantis no Theatro Municipal, entre eles, destacando-se “Pinóquio” e “Os 3 Mosqueteiros”.

Em 1990, foi homenageada no Museu de Arte Sacra, em um evento que reuniu a família, amigos e admiradores.


Esse texto é uma síntese de várias entrevistas com seus familiares e amigos , tendo como base as informações e os arquivos de seu neto João Batista da Costa Mancini, em junho de 2007.

* o texto em itálico foi extraído do artigo escrito por Antonio Carlos Lorette publicado na Revista Contra Regra edição de Setembro/2004

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